Alcoolismo uma urgência nacional - Dr. Manuel Faustino

Análise do Dr. Manuel Faustino publicada no dia 02 de Setembro, ao programa "Em Debate" com Daniel Medina, 31 Ago 2017 - tema: O Consumo do Álcool nas Festividades Nacionais, Municipais e Religiosas no seio da Juventude - Convidados: Jacinto Estrela (Sociólogo), Constantino (Padre), Manuel de Pina (Presidente da Associação Nacional dos Municípios de Cabo Verde).


emdebate

Alcoolismo uma urgência nacional

"Na passada quinta feira assisti um interessante debate na TCV que teve por tema central o uso abusivo de bebidas alcoólicas e a sua possível relação com os inúmeros festivais de música que se realizam por todo o país.
Os participantes- o sociólogo Jacinto Estrela, o autarca Manuel de Pina e o padre Constantina-moderados pelo jornalista Daniel Medina, discorreram sobre diferentes aspetos dessa complexa problemática que terão, espero, prendido a atenção de milhares de telespectadores.
Para além da importância e pertinência das questões abordadas, interessa referir, em primeiro lugar, a realização do debate em si. Na verdade, a televisão e rádio públicos, parceiros da Iniciativa Presidencial “Menos Álcool Mais Vida”, têm dedicado à causa uma atenção que convém destacar.
Do mês Julho a esta parte, tiveram lugar dois grandes debates e uma longa entrevista no jornal das oito da TCV sobre o uso abusivo de bebidas alcoólicas, antecedidos de ilustrativas reportagens a esse respeito.
A rádio nacional tem realizado importantes coberturas, por vezes em direto, de destacados eventos relacionados com a prevenção do alcoolismo.
Diariamente os dois órgãos difundem spots educativos na mesma linha.
Voltando ao debate, questões essenciais foram discutidas, evidenciando a grande interligação dos diversos fatores envolvidos nessa problemática.
Aspetos relacionados com a saúde pública, a economia, o entretenimento, a promoção de artistas nacionais, a educação, a qualidade das bebidas, a sua distribuição, publicidade e preço, bem como o aproveitamento de celebrações religiosas como pretexto para exageros, foram amplamente abordados
Insistiu-se muito, e com razão, nos fatos do uso abusivo de bebidas alcoólicas ter consequências nefastas para as pessoas, para as famílias e para a sociedade e da sua abordagem correta dever levar na devida conta os condicionantes que se situam a montante.
Na realidade, não será possível debelar o problema se as verdadeiras causas não forem identificadas e eliminadas ou controladas. Mas seria errado pensar que se deve atacar as causas e esperar que as consequências desapareçam. Isso não é correto porque, por um lado as consequências- como a morte, a aposentação prematura, a incapacidade física ou psicológica- muitas vezes são irreversíveis e por isso, quando possível, têm de ter abordagem imediata. Por outro lado, nem sempre se consegue agir com eficácia sobre as causas da dependência alcoólica.
O problema deve ser enfrentado numa perspetiva global e sistemática. As possíveis causas e as consequências do uso abusivo de álcool devem ser abordadas ao mesmo tempo e de forma articulada.
Não basta afirmar, repetitivamente que “todos temos de fazer a nossa parte: o Estado, a sociedade civil, as famílias os jovens, etc. etc. etc.”. É preciso explicitar o papel de cada um, particularmente no que se refere às entidades públicas. De outro modo estaremos, mais uma vez, perante uma diluição de responsabilidades, aliás, muito comum entre nós.
Os papeis devem ser definidos e as responsabilidades assumidas e avaliadas. Neste quadro, o Plano Estratégico Multissetorial de Combate aos Problemas Ligados ao Álcool do Ministério da Saúde e Segurança Social constitui uma excelente referencia para todas as vertentes dessa luta.
De alguns anos a esta parte o Presidente da República, tem insistido que o alcoolismo é uma urgência nacional. Por isso o seu enfrentamento tem de estar à altura dessa constatação.
Mas contrariamente ao que disse uma das pessoas entrevistadas na reportagem que antecedeu o debate, que por sinal fez uma interessante intervenção, não se podem esperar resultados significativos no imediato. A intervenção tem de ser imediata e permanente. Mas resultados palpáveis e consistentes, só devem surgir a médio e longo prazos.
Contudo, isso não nos impede de exultar com ganhos, mesmo parciais, como os que dados provisórios do IGAE atestam no sentido de uma redução de intercorrências clinicas relacionadas com o uso abusivo de álcool- consultas, internamentos, óbitos, urgências- em Santo Antão, com a implementação da legislação que disciplina a produção de aguardente.
Esses dados demonstram que medidas adequadas e oportunas podem ter impacto muito positivo, mas que se não forem permanentes podem levar a retrocessos.
Considerações de ordem económica estiveram muito presentes no debate. Questionou-se em que medida os festivais justificam os montantes investidos, tendo em conta outras prioridades. Defendeu-se que eles podem dinamizar a economia devido à movimentação de milhares de pessoas que possibilitam, grande consumo de produtos diversos, com especial incidência nas comidas e bebidas e à grande utilização de transportes e outros serviços.
Alertou-se para a necessidade de se realizar um balanço entre os ganhos económicos imediatos proporcionados pelos festivais e os custos das consequências negativas, especialmente os devidos ao álcool consumido de forma excessiva.
Talvez não fosse descabido extrair algumas conclusões desse interessante debate-bem conduzido pelo jornalista Daniel Medina- entre participantes com perspetivas e abordagens diferenciadas:
1- O uso abusivo de bebidas alcoólicas é um grave e complexo problema de saúde pública que urge enfrentar com determinação.
2- Os festivais de música ao contribuírem para esse uso abusivo devem ser organizados de forma a não promover esse tipo de consumo
3- A duração dos festivais deve ser controlada com maior rigor
4- Deve-se incentivar a realização de festivais sem álcool
5- Devem ser adotadas medidas que contribuíam para a melhoria da qualidade das bebidas alcoólicas
6- Deve ser instituída uma politica tendente a aumentar o preço das bebidas alcoólicas
7- As crianças e jovens devem ser melhor protegidas contra o alcoolismo
8- É importante ajudar as famílias a enfrentar essa problemática
Ideias interessantes expendidas por pessoas que sentem que o uso abusivo de bebidas alcoólicas constitui uma urgência nacional"

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